Eros, filho de aporia

Estou a ler novamente o Banquete de Platão. Daí me muni da vontade de ler um tanto mais a sério. Busquei comentários. Estou a lê-los concomitantemente. Se nisto vier a descobrir algum remansozinho em que me pôr por algum tempo, já estarei bem contente por ter, mesmo que circunstancialmente, ancorado os apelos distraídos do meu coração. Como não se pôr a deriva neste grande e vago mar de saudadesejo que se há de navegar?

A edição da Editora da Universidade Federal do Pará, 2011; traz um alentado estudo introdutório, onde se comentam várias das reentrâncias do texto. Lembra-se, entre outras coisas, o mito platônico do nascimento de Eros, filho do casal de opostos, penia ou penúria e poros ou abundância. Eros, aqui, não é outro senão a consequência harmônica desta contradição.

Pobre como a mãe, mas cheio de engenhos e de coragem – caracteres herdados do pai –  para se pôr a busca do que é belo. Sempre cobiçoso da abundância, mas condenado a estar eternamente em penúria, em a-poria. Um pouco mais adiante, hei ainda de aprender, junto com Sócrates, de Diotima de Mantineia, sábia sacerdotisa, que bem mais como um novo avatar de Penia, despe Eros da sua condição divina e dá à luz a sua verdadeira natureza. Eros é um daimon.

O que é um daimon? Um ser de um tipo intermédio entre homens e deuses. Pobre, pois lhe faltam todos os recursos específicos da natureza divina. Mas, mesmo assim, devoto servidor do belo, Afrodite, a quem há de cobiçar por toda sua vida.

O próximo passo, diriam alguns, seria empobrecer ainda mais a Eros e igualá-lo a Sócrates, segundo outros talvez elevar Sócrates a condição de Eros. Aqui temos a filosofia se igualando a erótica, onde Sócrates é o mesmo que Eros e a filosofia o mesmo que a erótica. Eros nasce de sua mãe Penia, que também pode se traduzir por a-poria – a que não tem recursos – o que o obriga a uma cobiça, a um desejo constante do divino. O que, ao fim e ao cabo, não livre de um certo atrevimento, pudéssemos arriscar dizer, que a filosofia é filha da penúria, da aporia.

Xiii! Parece que perdi meus óculos, e sem aquele intermédio de que se fazem as lentes já não consigo reconhecer muitos destes caminhos por entre estas letras aqui de perto? Bah!!! Já quase não consigo enxergar!!! Mas procuremos um pouco mais, aqui por trás deste outro livro. Ufa, aqui está, encontrei!!! E agora já não agonizo, já não derivo e já posso descansar um pouco aqui nesta abundância de caminhos que reconheço neste único texto frente aos olhos, pois que todos me foram entregues por aquele único intermédio de que se faz as lentes.

Retomemos. Portanto parece ser só por meio desta coragem com que determino a atividade, os apelos do coração deste nosso Eros, pois filho de poros – que hão de se originar deste sentir falta, deste cobiçar, pois também filho de aporia – que acabarei ainda por focar este belo a que quero chegar. Isto, por certo, nada garante, mas a depender da fidelidade com que me puser a amar e de uma possível circunstancial disposição para a generosidade que os deuses possam comportar, talvez ainda venha a topar com algumas pistas – opiniões corretas – que possam, por fim, levar ao verdadeiro endereço do belo que estou a almejar.

Por hoje, aqui ficamos. Certamente, ainda nos veremos em outro ponto do curso desta nossa jornada.

Um ab e até já

Jaime

00042 – um mundo en su vejez [das sentenças]

A qualquer momento, supondo nenhum atraso, a mãe haveria de descer do trem. Naquela gare a saudade não se colava mais aos fatos, era apenas a brusca síntese do que lhe restara.

Lá na outra ponta do banco, só aquele homem, quieto, ensaiava dormir.

Se pusera, então, por dentro de um bulício que o arrastara até aquele rancho a se sumir por trás dos tempos. A sentença do avô ainda não se lhe apagara da lembrança:

– Não volte mais a esta fazenda, por favor, isto hoje é tão-somente terra de mortos e não podemos mais ter parte contigo.

A gare o fazia recordar que era preciso se por nos trilhos, mas a estação era indecisa por natureza, um grande entroncamento de linhas. Sempre haveria de vacilar quanto a que rumo tomar.

Lembrava, tinha aprendido das ovelhas o como tratá-las na sua prenhez, quando doentes e até mesmo o jeito de as olhar na hora de levá-las à morte. Umas mergulhavam silenciosamente, outras berravam. Todas haveriam de atingir igualmente a eternidade. Eternidades, e contudo sem nenhum ponto de contato entre si.

Ele, ainda ali na gare, a esperar a mãe que não chega – ainda tinha de haver um ponto de contato – põe aqueles olhos que não existem, e que contudo carregamos, sobre si. Mais uma sentença:

– Estou a parecer um pastor.

Lembra de si naquele ponto junto ao fogo onde se tomava de silêncio, onde se ouvia atento a conversa desfiada de quem se punha a falar. Ali aprendera, meio aos tranquitos, que todos tinham um só seu jeito de desfiar uma história. E um só seu jeito de morrer.

Agora lá no outro extremo do banco, parece, se fez algum ruído. Então, o homem quieto põe os seus olhos quietos sobre ele, e diz:

– Pastor, nossa senhora me disse que devemos orar não só por nós, mas por todos!

Cessa, então, o bulício por dentro daquele homem, quieto, que agora se ajeita no banco e novamente ensaia dormir.

Ele, por fim, acorda de si. Adivinha que a mãe nunca haverá de chegar, pois desde muito tudo é tão-somente atraso. Se levanta e deixa a gare. Sabe que tem de tornar à casa.

00041- da pragmática 2 [em resposta a Leila]


Leila

a tua pergunta – não deveríamos voltar aos pais do pragmatismo, pragmatismo que era preocupado em promover o altruísmo, onde uma religião, por exemplo, deveria ser avaliada por sua capacidade de nos fazer dispensar cuidados e atenções entre nós? – me dá a oportunidade de repensar o que estou a fazer.

Contudo comecei a pensar tudo isto a partir da leitura de Interpretação e superinterpretação [Eco, Rorty, Culler]. Seminário que me pareceu poder ser lido em pelo menos dois níveis. O primeiro, mais evidente, o do debate que discute todos os meandros da interpretação do texto literário. O segundo, onde ao falarmos da interpretação nessa nossa época que descrê da possibilidade de experimentarmos o mundo, senão como representação, senão como interpretação, poderíamos, talvez, também entendê-lo como um debate sobre as interpretações do real.

Deste modo me furtei de citar autores e de me responsabilizar pela exata reprodução de suas vozes, mas sim, acabei por os entender como tipos mais ou menos universais, aos quais denominei atitudes [atitude estética, atitude pragmática e uma atitude que crê na coerência interna do texto, a qual talvez pudéssemos denominar realista – em um determinado momento pensei denominar as duas primeiras atitudes como o artista e o político, mas creio que acabaríamos por reduzir o âmbito de ação das mesmas]. Portanto Leila, de certo modo, não estou a falar bem de pragmatismo, mas, isto sim, de pragmática.

Tentando por mais a claro, falamos de pragmatismo desde William James, talvez, mas de pragmática, que é a relação que possamos ter com uma prática [práxis], desde sempre. Aqui poderíamos, por exemplo, revisitar Maquiavel e o velho problema se os fins justificam os meios.

Em determinado ponto do debate a voz do pragmático fala, e nos diz que deveríamos deixar de pensar a nossa leitura como uma interpretação que busca se aproximar de uma intenção do texto. Pra ele o que vale não é a interpretação, mas sim o uso que dela faremos, esta interpretação está condicionada aos fins que tenciono dar a ela, de certa forma aqui interpretar é persuadir. O que me parece não ser mais que uma reedição de Trasímaco, que afirma, respondendo a Sócrates, que a Justiça não é outra coisa que não a conveniência do mais forte. Este tipo de atitude anti-essencialista, como a denomina o pragmático do nosso debate, parece, por fim, nos obrigar a disputa, ao enfrentamento. Estamos nos círculos do vale tudo, onde o princípio que devo seguir se pauta unicamente pela tentativa de atingir os meus objetivos.

Nisto abro Anne Cheng, quando fala na introdução de a História do pensamento chinês: a ausência de teorização à maneira grega e escolástica explica, sem dúvida, a tendência chinesa ao sincretismo. Não há verdade absoluta e eterna, mas dosagens. Daí a contradição não ser entendida como termos que se excluem, mas sim, como termos complementares … … … nesse  pensamento prevalece a reflexão menos sobre o conhecimento em si do que sobre sua relação com a ação. Isto nos afasta da guerra frontal, pois podemos entender que posições antagônicas se complementam.

Podemos observar que estes dois modos de conceber a pragmática se comportam também de modo diferente frente à tradição: de um lado estamos no campo da disputa, onde a minha tese se pretende exclusiva ela não se permite conviver com outras. Estamos sempre trabalhando no sentido de refundar o mundo, de reinventá-lo, apostamos todas as nossas fichas no novo, no ser original. Do outro lado não vivemos sob a óptica do conflito, mas sim nos inserimos no grande barco da tradição, atuando de modo complementar, aceitando as contradições que se refletem no pensamento de quem pensa uma realidade contraditória, aqui quem pensa é muito menos o eu e bem mais as relações entre os modos diferentes, mas complementares, de conceber a realidade. De um lado temos a ação corrosiva do lógos que nos leva ao nada. De outro temos o vazio que emerge da contradição, que compreende o caráter proteico da realidade e não pretende imobilizá-lo com uma qualquer trama teórica.

Após ter tentado me explicar um pouco melhor, tento agora responder mais objetivamente a tua pergunta. Sim creio que deveríamos viver de um modo mais altruísta; ter mais consideração pelo outro e fomentar o bem estar geral da humanidade. Por outro lado me parece que uma das principais dificuldades que temos para atingir este objetivo é fundarmos nossa prática sobre a matriz da disputa, do confronto, do partido e da guerra. Uma matriz de exclusão, que no mais das vezes aniquila qualquer outro possível a que pudéssemos demonstrar nosso altruísmo, nosso afeto. Portanto a questão me parece menos a de ser pragmáticos, que por fim, me parece todos somos, mas de qual pragmática adotaremos. Acho que seria bom juntarmos um coraçãozinho aos nossos arrazoados e experimentarmos um espaço de convívio.

Espero que possa ter respondido de algum modo a tua pergunta Leila. No mais te deixo um abraço e até a próxima

Jaime

00040 – Da pragmática

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Neste segundo semestre de 2011 alguns dos meus mitos pessoais, que ergui nos últimos anos, acabaram por ir a breca. Entre eles o de que o primeiro semestre do ano, cinematograficamente, é melhor. Fato que me parecia observável, pelo menos,  nos últimos 5 ou 6 anos. A mim parecia que os melhores filmes eram sempre os do primeiro semestre. 2011 me desmentiu isso [ Meia-noite em paris, O conto chinês, Medianeras, Copacabana e por fim o extraordinário A árvore do amor – é bom sempre lembrar o que nos pode causar o salto indutivo ao tentarmos erguer leis a partir da simples observação empírica dos fatos ].

Depois da nossa última prosa, fiquei com uma vontade grande de eleger o pragmático como o bandido da história. Mas o todo daquela nossa prosa já acusava que assim não podia ser. Bandidos parecem só ser plausíveis nas telinhas ou telonas, ou nas páginas dos nossos diários. As coisas quando pensadas ou vividas teimam em não se contentar com dualismos. E, por sorte, no curso dos livros a ler neste segundo semestre, depois de ter presenciado o lançamento, na palavraria, da tradução da Obra completa da poeta chinesa Yu Xuanji [mais uma mostra do quão extraordinário tem sido este segundo semestre de 2011]; acabei por retomar a leitura da História do pensamento chinês de Anne Cheng [Vozes], o que me obrigou a repensar a situação deste modo:

No ocidente o pragmático impôs ao contingente um método, um método que nos ensinou a descrer, método que, por fim, culminou no advento do nada e que nos obrigou a uma total desvitalização das coisas do mundo. Aqui, o método nasce do logos, subjuga o mundo e o dispõe em alternativas antagônicas, que só se tornarão válidas na medida que já estiverem previstas nos princípios. A razão contudo não consegue nos conduzir pra além de si. O outro está perdido, acabando por ficarmos apenas com o que dele se diz.

E no oriente, contudo, havemos também de nos deparar com o pragmático, mas lá ele não tomou o bonde do logos. Ali o método é, em sua inteireza, o se acercar da realidade, a sua atitude não é  desconfiada. Rondamos aquilo posto ao centro. Sabemos que ali há um outro, que não poderá ser reduzido a um conceito, a uma palavra. Nos deparamos com o todo, com o símbolo, com o vazio. E cabe dizer: o vazio, diferente do nada, é um encontro, porque estamos diante do outro, afetuosamente acolhido e limpo de nossos conceitos.

Dito isto, parece que podemos seguir pensando a atitude pragmática. Sem ter de pô-la junto da escória do mundo.

Um abraço

00039 – fazer água

Quase tudo ainda dormia e quase todo o pensamento que desde a fonte se lhe impunha era em torno do seu menor. Ele estava em febre. A água de beber acabara. Acordara então o maior, ainda franzino demais para cuidar de trazer a bilha, para que tratasse de cuidar do menor pelo tempo de ela ir e voltar com água.

O caminho ora se tornava estreito. Não havia fuga ali daquele passo. Tudo que lhe viesse em contrário lhe obrigaria a cuidar só de si. Lá pra mais da metade daquele estreito, percebe a vir um menino, estranhamente sozinho. Quando pôde divisar seu rosto, assistiu-lhe um susto, pois sua mirada era de todo boniteza. Tanto se lhe impôs o susto que derrubou a bilha.

Choro e desespero. Cacos, muitos cacos. E o chão úmido da água que carregava, lhe sugava os cuidados que havia planeado de dar ao pequeno. O menino a olha e se lhe estreita em um abraço e então cuida de juntar todos os pequenos pedaços da bilha, e sabe-se lá como, entrega-os bilha inteira e cheia d’água. Se despede do menino e segue para casa.

Em casa, o maior não resistira ao sono e o menor, sabe-se lá como, com um quase sorriso em seus lábios, vela e cuida do maior a seu lado. Algo em tudo se desperta, e o dia se obriga a amanhecer.

00038 – após ter lido “interpretação e superinterpretação”

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Acabamos por nos desesperar da verdade. Optamos por nos tornar leitores do mundo. Estamos contentes? Pondo lado a lado todas as possíveis leituras da realidade, poderemos ainda falar em maior ou menor proximidade destas leituras com o real? Se viermos a dar uma resposta positiva poderemos, a um só tempo, eleger como válidas as mais próximas e excluir as mais distantes [que, em extremo, deverão ser consideradas como um puro falseamento do real]. Mas como, se abdicamos de toda e qualquer verdade?

Agora, então, teremos de nos haver com as razões da razão. E talvez assim venhamos a validar a nossa leitura, lembrando que todo o texto se constrói a partir da obediência a certos encadeamentos lógicos, onde viermos a aceitar certas premissas inelutavelmente seremos conduzidos aos seus consequentes resultados. Segundo alguns o manter-se fiel a esta coerência interna do texto, a esta intenção [ooops!] do texto, deverá ser um bom critério para validarmos nossas leituras.

Por que ooops!? Porque encontraremos pelo menos dois tipos de atitudes que se contraporão ao que foi acima exposto. Dizendo: como assim intenção do texto?

A primeira: a atitude estética se opõe a que se possa ver uma intenção no texto da nossa realidade, lembrando-nos o peso que se deve dar à recepção, mesmo quando o pedaço de real a que estivermos nos referindo seja também um texto, onde haveremos, por certo, de ter em conta também a intenção do autor, mesmo esta intenção – a do autor – não será senão outra leitura, a primeira, mas não por isso com maior ou menor validade diante de todas as outras possíveis leituras. Esta atitude não se contenta com a univocidade do real e sustenta que, se formos suficientemente perspicazes, teremos como ver uma miríade de sentidos em um só quinhão de realidade [e aqui, talvez, coubesse lembrar Borges a lamentar a exérese, a amputação que a navalha de Ockham operou na cultura do Ocidente].

A outra atitude: a pragmática, tão ou mais desafiadora da intenção do texto do que a atitude estética, entende que as nossas leituras do real nada mais querem do que validar o uso que faremos da realidade, já que, segundo ela, vivemos em um mundo sem essências e sem verdade.

Nos ocupamos, até aqui, da parte mais racional desse debate entre as atitudes acima delineadas. Mas guardemo-nos um pouco mais de dar fim aos nossos trâmites. Nos resta ainda navegar todo um outro oceano, o dos nossos afetos, que sub-repticiamente intervêm em todas as nossas escolhas. Quais foram os constrangimentos, as familiaridades, as bem-querenças que fizeram com que escolhêssemos os modelos de leitura que acabamos por escolher [o jogo, o texto, a jornada do herói, a energia, o poder, a refração da luz, a guerra, o amor  ...]? Parece ser apenas este momento, após termos erguido o nosso esquálido arcabouço argumentativo, o único capaz de dar substância às nossas ideias. Pois agora elas já podem sorrir, chorar, gritar ai, ou o que por fim seja. Aqui estamos a avançar num terreno diferente do habitual. Onde as consequências parecem ter-se esquecido de se seguirem às causas, onde o pensamento já não anda em linha reta, mas no mais das vezes em círculos. A ordem do dia não é mais diacrônica, mas sim sincrônica. É como se tivéssemos esquecido a linha melódica e estivéssemos absorvidos na harmonia. Estamos em um lugar de padecimentos, de sofrer não só tristezas mas também alegrias. E, por conta da simultaneidade que experimentamos, onde há de se ter alguma chance da verdade dar as caras, se dar a conhecer e de podermos viver uma qualquer pequena epifania.

Depois de termos enfrentado com brio o debate com e de termos padecido nossas ideias, agora haveremos de tentar realizar o debate , procuraremos, então, um modo de convívio e de construção da nossa experiência de comunidade. O problema aqui é saber o quanto nossas trocas são efetivamente trocas. Entramos sempre nesse mundo de um modo ambíguo, refletindo o ambíguo de nossas ideias. Aqui construiremos aquilo que será matéria de ensino em nossas escolas. Aquilo a que mais tarde haveremos de chamar tradição. As perguntas do método socrático que vieram provocar o ethos dos helenos também acabaram por lhe obrigar a tomar uma taça de cicuta. Bruno foi queimado por revelar um universo de infinitos mundos. Tudo isso, nós, hoje, contamos aos nossos filhos a partir da cátedra [cátedra que habita também as nossas catedrais]. É este debate que se faz já não só ideia, mas também voz, sangue e intenção humanas, e que, por fim, construirá a intenção do texto da nossa realidade. Talvez pudéssemos lembrar neste ponto, que toda a pompa e circunstância, todas as regras de conduta evocam ecos da infância. Pois toda a ritualística se resume a querer brincar [o tempo é uma criança que brinca - Heráclito], e se lembrarmos que brinc- é unir, podemos dizer que a verdadeira intenção do texto é comungar. O que é comungar? Comungar talvez não seja mais do que se estabelecer uma távola em que todos possamos tomar assento, onde focados naquele mínimo vazio central, sejamos capazes de nos reconhecer e de, por fim, esquecer pelo menos por um instante nossas personalidades.

E para encerrar, inda caberia dizer, por certo devamos sim nos desesperar de traduzir do bom verdadês para um bom humanês, mas não nos desesperemos da verdade, pois parece certo, inda nos resta padecê-la um outro tanto qualquer.