Pequena nota desentranhada da leitura de Szlezak


Recentemente topei com interessante passagem no livro Ler Platão de Thomas Szelezak comentando a crítica. Passagem que parece deixar claro o quão saudável, mesmo quando demolidora, pode ser a crítica, em alguns casos, mesmo que paradoxalmente, pode vir a fortalecer uma obra. Szelezak cita o caso de Homero que sofreu a crítica dos melhores dos pré-socráticos. Heráclito queria bani-lo dos festivais. Xenófanes zombeteiramente arguia que fossem os bois erguer imagens dos deuses e delas fariam bois. Os deuses homéricos eram demasiadamente homens.

Poderiam os gregos, já a esse tempo, pôr no lixo a Ilíada e a Odisséia? Parece que Homero já havia sido  instituído, era o mestre de uma civilização, os gregos vinham beber sabedorias nele, os filhos dos melhores aprendiam grego com ele. Como dizer, então, que ele nada mais valia?

Os gregos optaram por ler novamente Homero. E disto criaram formas de interpretação alegóricas de sua obra. Homero não dizia necessariamente o que queria dizer, a sabedoria precisava ser desentranhada do poema por novos aparatos interpretativos. O que, de um modo paradoxal, tornou Homero ainda mais importante.

E talvez aqui pudéssemos lembrar Propp ou Campbell, que afirmam que uma narrativa, ou a jornada do herói só poderão se realizar com a aparição de um antagonista. Uma obra literária parece muitas vezes também só alcançar seu destino através de uma fricção com inóspito território da crítica. O que poderá lhe obrigar a se conduzir por novos caminhos, cuidando de forjar novas leituras, mais convincentes para as novas mentalidades.

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Eros, filho de aporia

Estou a ler novamente o Banquete de Platão. Daí me muni da vontade de ler um tanto mais a sério. Busquei comentários. Estou a lê-los concomitantemente. Se nisto vier a descobrir algum remansozinho em que me pôr por algum tempo, já estarei bem contente por ter, mesmo que circunstancialmente, ancorado os apelos distraídos do meu coração. Como não se pôr a deriva neste grande e vago mar de saudadesejo que se há de navegar?

A edição da Editora da Universidade Federal do Pará, 2011; traz um alentado estudo introdutório, onde se comentam várias das reentrâncias do texto. Lembra-se, entre outras coisas, o mito platônico do nascimento de Eros, filho do casal de opostos, penia ou penúria e poros ou abundância. Eros, aqui, não é outro senão a consequência harmônica desta contradição.

Pobre como a mãe, mas cheio de engenhos e de coragem – caracteres herdados do pai –  para se pôr a busca do que é belo. Sempre cobiçoso da abundância, mas condenado a estar eternamente em penúria, em a-poria. Um pouco mais adiante, hei ainda de aprender, junto com Sócrates, de Diotima de Mantineia, sábia sacerdotisa, que bem mais como um novo avatar de Penia, despe Eros da sua condição divina e dá à luz a sua verdadeira natureza. Eros é um daimon.

O que é um daimon? Um ser de um tipo intermédio entre homens e deuses. Pobre, pois lhe faltam todos os recursos específicos da natureza divina. Mas, mesmo assim, devoto servidor do belo, Afrodite, a quem há de cobiçar por toda sua vida.

O próximo passo, diriam alguns, seria empobrecer ainda mais a Eros e igualá-lo a Sócrates, segundo outros talvez elevar Sócrates a condição de Eros. Aqui temos a filosofia se igualando a erótica, onde Sócrates é o mesmo que Eros e a filosofia o mesmo que a erótica. Eros nasce de sua mãe Penia, que também pode se traduzir por a-poria – a que não tem recursos – o que o obriga a uma cobiça, a um desejo constante do divino. O que, ao fim e ao cabo, não livre de um certo atrevimento, pudéssemos arriscar dizer, que a filosofia é filha da penúria, da aporia.

Xiii! Parece que perdi meus óculos, e sem aquele intermédio de que se fazem as lentes já não consigo reconhecer muitos destes caminhos por entre estas letras aqui de perto? Bah!!! Já quase não consigo enxergar!!! Mas procuremos um pouco mais, aqui por trás deste outro livro. Ufa, aqui está, encontrei!!! E agora já não agonizo, já não derivo e já posso descansar um pouco aqui nesta abundância de caminhos que reconheço neste único texto frente aos olhos, pois que todos me foram entregues por aquele único intermédio de que se faz as lentes.

Retomemos. Portanto parece ser só por meio desta coragem com que determino a atividade, os apelos do coração deste nosso Eros, pois filho de poros – que hão de se originar deste sentir falta, deste cobiçar, pois também filho de aporia – que acabarei ainda por focar este belo a que quero chegar. Isto, por certo, nada garante, mas a depender da fidelidade com que me puser a amar e de uma possível circunstancial disposição para a generosidade que os deuses possam comportar, talvez ainda venha a topar com algumas pistas – opiniões corretas – que possam, por fim, levar ao verdadeiro endereço do belo que estou a almejar.

Por hoje, aqui ficamos. Certamente, ainda nos veremos em outro ponto do curso desta nossa jornada.

Um ab e até já

Jaime

00042 – um mundo en su vejez [das sentenças]

A qualquer momento, supondo nenhum atraso, a mãe haveria de descer do trem. Naquela gare a saudade não se colava mais aos fatos, era apenas a brusca síntese do que lhe restara.

Lá na outra ponta do banco, só aquele homem, quieto, ensaiava dormir.

Se pusera, então, por dentro de um bulício que o arrastara até aquele rancho a se sumir por trás dos tempos. A sentença do avô ainda não se lhe apagara da lembrança:

– Não volte mais a esta fazenda, por favor, isto hoje é tão-somente terra de mortos e não podemos mais ter parte contigo.

A gare o fazia recordar que era preciso se por nos trilhos, mas a estação era indecisa por natureza, um grande entroncamento de linhas. Sempre haveria de vacilar quanto a que rumo tomar.

Lembrava, tinha aprendido das ovelhas o como tratá-las na sua prenhez, quando doentes e até mesmo o jeito de as olhar na hora de levá-las à morte. Umas mergulhavam silenciosamente, outras berravam. Todas haveriam de atingir igualmente a eternidade. Eternidades, e contudo sem nenhum ponto de contato entre si.

Ele, ainda ali na gare, a esperar a mãe que não chega – ainda tinha de haver um ponto de contato – põe aqueles olhos que não existem, e que contudo carregamos, sobre si. Mais uma sentença:

– Estou a parecer um pastor.

Lembra de si naquele ponto junto ao fogo onde se tomava de silêncio, onde se ouvia atento a conversa desfiada de quem se punha a falar. Ali aprendera, meio aos tranquitos, que todos tinham um só seu jeito de desfiar uma história. E um só seu jeito de morrer.

Agora lá no outro extremo do banco, parece, se fez algum ruído. Então, o homem quieto põe os seus olhos quietos sobre ele, e diz:

– Pastor, nossa senhora me disse que devemos orar não só por nós, mas por todos!

Cessa, então, o bulício por dentro daquele homem, quieto, que agora se ajeita no banco e novamente ensaia dormir.

Ele, por fim, acorda de si. Adivinha que a mãe nunca haverá de chegar, pois desde muito tudo é tão-somente atraso. Se levanta e deixa a gare. Sabe que tem de tornar à casa.

00041- da pragmática 2 [em resposta a Leila]


Leila

a tua pergunta – não deveríamos voltar aos pais do pragmatismo, pragmatismo que era preocupado em promover o altruísmo, onde uma religião, por exemplo, deveria ser avaliada por sua capacidade de nos fazer dispensar cuidados e atenções entre nós? – me dá a oportunidade de repensar o que estou a fazer.

Contudo comecei a pensar tudo isto a partir da leitura de Interpretação e superinterpretação [Eco, Rorty, Culler]. Seminário que me pareceu poder ser lido em pelo menos dois níveis. O primeiro, mais evidente, o do debate que discute todos os meandros da interpretação do texto literário. O segundo, onde ao falarmos da interpretação nessa nossa época que descrê da possibilidade de experimentarmos o mundo, senão como representação, senão como interpretação, poderíamos, talvez, também entendê-lo como um debate sobre as interpretações do real.

Deste modo me furtei de citar autores e de me responsabilizar pela exata reprodução de suas vozes, mas sim, acabei por os entender como tipos mais ou menos universais, aos quais denominei atitudes [atitude estética, atitude pragmática e uma atitude que crê na coerência interna do texto, a qual talvez pudéssemos denominar realista – em um determinado momento pensei denominar as duas primeiras atitudes como o artista e o político, mas creio que acabaríamos por reduzir o âmbito de ação das mesmas]. Portanto Leila, de certo modo, não estou a falar bem de pragmatismo, mas, isto sim, de pragmática.

Tentando por mais a claro, falamos de pragmatismo desde William James, talvez, mas de pragmática, que é a relação que possamos ter com uma prática [práxis], desde sempre. Aqui poderíamos, por exemplo, revisitar Maquiavel e o velho problema se os fins justificam os meios.

Em determinado ponto do debate a voz do pragmático fala, e nos diz que deveríamos deixar de pensar a nossa leitura como uma interpretação que busca se aproximar de uma intenção do texto. Pra ele o que vale não é a interpretação, mas sim o uso que dela faremos, esta interpretação está condicionada aos fins que tenciono dar a ela, de certa forma aqui interpretar é persuadir. O que me parece não ser mais que uma reedição de Trasímaco, que afirma, respondendo a Sócrates, que a Justiça não é outra coisa que não a conveniência do mais forte. Este tipo de atitude anti-essencialista, como a denomina o pragmático do nosso debate, parece, por fim, nos obrigar a disputa, ao enfrentamento. Estamos nos círculos do vale tudo, onde o princípio que devo seguir se pauta unicamente pela tentativa de atingir os meus objetivos.

Nisto abro Anne Cheng, quando fala na introdução de a História do pensamento chinês: a ausência de teorização à maneira grega e escolástica explica, sem dúvida, a tendência chinesa ao sincretismo. Não há verdade absoluta e eterna, mas dosagens. Daí a contradição não ser entendida como termos que se excluem, mas sim, como termos complementares … … … nesse  pensamento prevalece a reflexão menos sobre o conhecimento em si do que sobre sua relação com a ação. Isto nos afasta da guerra frontal, pois podemos entender que posições antagônicas se complementam.

Podemos observar que estes dois modos de conceber a pragmática se comportam também de modo diferente frente à tradição: de um lado estamos no campo da disputa, onde a minha tese se pretende exclusiva ela não se permite conviver com outras. Estamos sempre trabalhando no sentido de refundar o mundo, de reinventá-lo, apostamos todas as nossas fichas no novo, no ser original. Do outro lado não vivemos sob a óptica do conflito, mas sim nos inserimos no grande barco da tradição, atuando de modo complementar, aceitando as contradições que se refletem no pensamento de quem pensa uma realidade contraditória, aqui quem pensa é muito menos o eu e bem mais as relações entre os modos diferentes, mas complementares, de conceber a realidade. De um lado temos a ação corrosiva do lógos que nos leva ao nada. De outro temos o vazio que emerge da contradição, que compreende o caráter proteico da realidade e não pretende imobilizá-lo com uma qualquer trama teórica.

Após ter tentado me explicar um pouco melhor, tento agora responder mais objetivamente a tua pergunta. Sim creio que deveríamos viver de um modo mais altruísta; ter mais consideração pelo outro e fomentar o bem estar geral da humanidade. Por outro lado me parece que uma das principais dificuldades que temos para atingir este objetivo é fundarmos nossa prática sobre a matriz da disputa, do confronto, do partido e da guerra. Uma matriz de exclusão, que no mais das vezes aniquila qualquer outro possível a que pudéssemos demonstrar nosso altruísmo, nosso afeto. Portanto a questão me parece menos a de ser pragmáticos, que por fim, me parece todos somos, mas de qual pragmática adotaremos. Acho que seria bom juntarmos um coraçãozinho aos nossos arrazoados e experimentarmos um espaço de convívio.

Espero que possa ter respondido de algum modo a tua pergunta Leila. No mais te deixo um abraço e até a próxima

Jaime